"Com a morte dos pais, casal de crianças fica sob a guarda da governanta e da preceptora. É o jardineiro da casa, porém, que os fascina e domina. Retrato da Inglaterra vitoriana, com ênfase na descoberta da sexualidade e da morte".
Esta obra deve ser considerada uma espécie de pré-sequência para "The Turn of the Screw", novela escrita por Henry James, que foi eficientemente adaptada para o cinema no filme "Os Inocentes" de 1961.
E que bela pré-sequência! Em "Os que chegam com a noite" a agressividade é direta. Não há espaço para a sugestão, pois ela sobraria. O efeito de "causa e consequência" se revela no que tem de mais sombrio enquanto as crianças se projetam naquilo que observam e selecionam como válido.
O descaramento voluptuoso da violência aqui apresentada só atinge tamanho grau de preciosidade porque as nuances do roteiro são muito bem valorizadas pelo diretor Michael Winner. Destaque também para a magistral atuação de Marlon Brando, um monstro que talvez só conseguisse alcançar tais picos de perfeição por julgar o trabalho de ator como sendo algo menor.
Um casal de turistas ingleses chega a uma ilha onde todas as crianças ficaram loucas e estão assassinando os adultos.
Ótimo filme. Em comum com outra grande obra, "O Senhor das Moscas" de 1963, "¿Quién puede matar a un niño?" apresenta o tema da inocência infantil como sendo mais ligado ao instinto humano que à ideia de virtude ocidental. O desenvolver da trama e seu desfecho, que muito lembram os melhores filmes de zumbi de Romero, mostram o revanchismo como um processo ciclicamente nulo - não é por acaso que o filme começa com cenas documentais de crianças sofrendo. Incomoda. Nada suaviza. Até a fotografia, com sua crueza clara, faz o suor brotar na testa do espectador. E em meio a crescente angústia, onde o caos caminha para o silêncio, comparações com questões sociais se fazem menores; já com questões humanas, maiores.
Padrões precisam ser invertidos para o errado ser notado? O fator provocador está mais presente na ficção que na realidade? Realidade? Melhor parar de pensar neste filme e ir comer uma pizza.
Filmado de forma semi-documental, "Slaughtered Vomit Dolls" pretende ser o precursor de um novo subgênero , o "Vomit Gore". A protagonista do filme é uma bulímica stripper e prostituta de 19 anos chamada Angela Aberdeen. O "enredo" se concentra no estado psicológico de Angela, que passa a ter alucinações e pesadelos terríveis onde mulheres são brutalmente torturadas e assassinadas.
A sinopse dada acima é uma maneira de ver o filme. "Slaughtered Vomit Dolls" é um desfile de prostitutas e strippers, às quais são atribuídas relevâncias maléficas por meio de efeitos sonoros simples; algum gore fora de foco editado rapidamente em curtas sequências; mais auto-induções de vômito. Breve contraposição a isto está nos registros de uma menininha angelical e loira, como que num passado comum pré-perversão, que confere à obra, paradoxalmente, certa ingenuidade.
Não há ordem para os acontecimentos. É como se o espectador estivesse presente numa exposição de slides que se sucedem sem padrão narrativo linear algum, com audio sincronizado, versando sobre aspectos da morbidez humana. "Slaughtered..." está longe de inaugurar um subgênero qualquer, mas sem sombra de dúvida é um exercício particular no campo dos filmes de terror. Válido pra quem realmente é fã do gênero.
John Wadd, ou John C. Holmes, não era tão bonito, nem tão inteligente, nem tão corajoso. Ele só tinha um pênis enorme e sabia transar. Unindo a isso seu jeito gentil e doce de tratar as atrizes, John Holmes construiu sua reputação de maior astro de filmes pornôs de todos os tempos, transformando-se numa personalidade cult. No entanto, sua vida particular era misteriosa e obscura, formando um quebra-cabeça complexo. Com vários depoimentos e entrevistas de jornalistas, atores, fotógrafos, editores, amigos, membros da família e até do cineastra consagrado Paul Thomas Anderson, este precioso documentário pretende dissecar várias facetas da vida de uma personalidade intrigante.
Alguns detalhes, como a relação de John Holmes com seus sobrinhos, são jogados meio que repentinamente e de qualquer maneira, especialmente nos minutos finais do filme. Tirando isso, "Wadd: A vida e época de John C. Holmes" chega muito próximo do que deveria ser a objetividade de um "documentário sério", apresentando diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema. Leve-se em consideração o quanto isto deve ter sido difícil, tamanho o caráter fantástico da vida do ator em questão. Muito bom.
One-Eye é um guerreiro brutal que nunca diz uma única palavra. Mantido prisioneiro numa aldeia, é forçado a lutar até a morte com outros guerreiros para o deleite do chefe da tribo até o dia em que escapa, levando junto o garoto que lhe dava água e comida enquanto estava aprisionado. A dupla logo se une a um grupo de vikings que pretende chegar à Terra Santa, mas o destino de todos será bem diferente do esperado.
É muito clichê de sabedoria de verniz falar sobre a fotografia de um filme, mas em "Valhalla Rising - O Guerreiro Silencioso" isto se faz necessário, pois ela é extremamente bela.
No mais, Nicolas Winding Refn se mostra um diretor extremamente autoral, capaz de fazer filmes mais lentos com vários elementos comuns ao gênero de ação. De uma agressividade introspectiva, como uma boa música do grupo de rock alternativo Sonic Youth.
Duas estórias distintas passadas no Japão durante o Período Edo.
Na primeira estória, numa época em que cristãos eram perseguidos, Iori se apaixona por uma garota cristã. Quando a família da menina é capturada, o mestre de Iori, um louco sádico, a toma como sua escrava e a submete às mais escabrosas torturas com uma excitação extra pelo fato dela ser o alvo do amor de seu servo.
Na segunda estória, quando Sutezo é obrigado a trabalhar para o cruel dono de um bordel para o qual está devendo dinheiro, ele acaba virando amigo da jovem prostituta Sato. Juntos eles fogem e tentam se virar por meio de esquemas ilícitos.
Este filme é uma verdadeira relíquia para fãs do cinema extremo. Ele é pra você, fã de torture porn, gênero que discutivelmente teria começado com o primeiro "Jogos Mortais". Se alguém compartilha desta opinião, pode-se dizer que "Shogun's Sadism" definitivamente faz parte da linha evolutiva do gênero. Este filme também é para você, fã do cinema grotesco japonês, que quando é grotesco realmente o é, remontando as suas raízes.
Durante as cenas realistas de tortura é impossível não lembrar de Salò, de Pier Paolo Pasolini. Inclusive, a primeira estória compartilha deveras da filosofia sadeana, onde os mais fortes prevalecem sobre os mais fracos, a virtude é motivo de troça e há a total "coisificação" do corpo humano. O único fato que corta esta vertente são os poucos segundo finais que sugerem um final feliz em outro plano metafísico.
Já o segundo episódio é menos tenso. Além de um maior desenvolvimento das personalidades dos personagens, movimento que cria uma certa empatia com o espectador, há inclusive momentos de comédia que proporcionam certas pausas de alívio. Mesmo assim, num todo, a obra é extremamente impiedosa.
"Shogun's Sadism" é bem dirigido e filmado. A classe do cinema japonês, na maioria das vezes soberana, se mantém como geralmente acontece nos filmes nipônicos de época. Os atores cumprem seu papel e a trilha sonora pouco usual está de acordo com o incômodo causado por este exercício sanguinolento.
Se o filme de Yûji Makiguchi pretende exercer alguma crítica com relação à história, ela pode ser sublinhada com as imagens de horror real que aparecem nos créditos. O ponto negativo fica para o embaçamento sobre as genitálias dos personagens quando estas deveriam aparecer, procedimento que ocorre, inclusive, nos filmes pornôs japoneses atuais. E isto também é uma questão aqui no ocidente, mais velada mas válida para discussão. É estranho e parece hipócrita que a violência extrema tenha mais aceitação do que certas partes do corpo, mas isso já é outro papo que não cabe aqui.
Enfim, confiram esta experiência.
Baseado no Conto de H.P. Lovecraft. Dois jovens turistas, Bárbara e Paul, vão à procura de ajuda em uma pequena cidade chamada Imboca (Innsmouth), na costa de Galiza, na Espanha, depois que o barco em que estavam afunda. No entanto, os moradores da cidade não são amigáveis, nem mesmo humanos, com excessão de um bêbado chamado Ezequiel. Este último diz a Paul como os habitantes da cidade derrubaram o cristianismo a favor do deus Dagon, que lhes trouxe riquezas do fundo do mar. Desde então eles se tornaram obedientes à bela criatura Uxía. Estranhamente ela aparece a Paul em seus sonhos e mesmo antes de se encontrarem ela o salva da morte. No entanto, seus planos para ele e Bárbara desencadearão um horror além da imaginação.
Até prende a atenção.
A computação gráfica em "Dagon" traz um quê de "defeito especial" à adaptação de Lovecraft - aliás, as adaptações do autor norte-americano pelo diretor Stuart Gordon, cheias de audaz sanguinolência e humor negro, são quase um subgênero em si mesmas. Enfim, válido. Os filmes de Gordon (homenageado no Fantaspoa 2012) são todos válidos. Uns mais, outros menos.